Muito além das marcas...

Texto na revista digital Mundo Tri - DEZ 2011


Esses dias estava conversando com uma pessoa, e ela disse que para um esporte emplacar, dar certo e atrair público praticante, espectador e telespectador, precisa ter emoção.

Eu concordo que futebol tem emoção, automobilismo tem emoção, volei tem emoção, e até jogos de tênis tem emoção... mas onde esta a emoção no Ironman ?

Tirando uma ou outra chegada mais disputada, ou acompanhar um atleta que esta tirando a diferença de outro na maratona final, não vemos emoção nenhuma.

Então perguntei para a pessoa:

Onde esta a emoção no Ironman?

Ela respondeu: Não há.

Então eu questionei:

Por que competições de Ironman crescem a cada ano, e mais e mais praticantes preenchem as inscrições e lotam as provas, mesmo que a inscrição custe mil reais?

A resposta foi:Não sei.

Ao meu entender, as provas de Ironman, que são bem diferentes do Triathlon Olímpico, chamam a atenção das pessoas por que logo depois que alguém assiste um evento, ela pode se identificar com o desafio, e logo em seguida começar a praticar e colocar como meta lá na frente completar um Ironman.

Ou seja: qualquer um que assiste um Ironman, pode também fazer um Ironman.

Se você assiste um jogo de futebol ou um jogo de tênis, é provável que você nunca consiga estar naquele campo, ou naquela quadra.

Agregando ainda mais, o triatleta Ironman esta praticando um esporte que o treina por completo, muito além apenas do condicionamento físico.

A pessoa aprende sobre humildade, organização, educação, auto controle, disciplina, fisiologia, alimentação, clipa, amor, compaixão, amizade, mecânica, trabalho em equipe, etc, etc, etc...

O Ironman é realmente um esporte completo!

Quem treina para um Ironman, esta mais do que treinando para competir em Floripa, Cozumel, Arizona, Miami, ou qualquer outra cidade.

Quem treina para um Ironman, esta treinando para a vida.

Tudo o que eu falei aí em cima é a parte boa, e claro, como tudo existe a parte ruim.

Concordo que as empresas que enxergaram e agarraram a oportunidade de desenvolver divulgar e dar início às competições de Ironman, foram lá trás, e são ainda hoje um dos responsáveis por esse esporte estar tanto em crescimento.

Foi bem simples: empresas viram que era um esporte atrativo e que simpatizava com um nicho na população e começaram a organizar eventos.

Com a ajuda de atletas rastejando para chegar ao final da competição e da mídia correta na hora correta.... boom!! Nasceu a febre chamada Ironman.

Não quero parecer estar criticando as empresas que organizam eventos de Ironman, e não estou!! Apenas gostaria que como no golf, no basquete americano, no beisebol, no futebol americano, os próprios atletas tomassem conta do esporte, pois apenas atletas e ex atletas sabem o que um Ironman precisa.

Apenas isso!

As competições de Ironman estão cada vez mais transborando de pessoas... estas pessoas estando ou não estando preparadas para este grande desafio.

Atualmente, logo após o último atleta atravessar o pórtico de chegada, as inscrições do evento para o ano seguinte são abertas, e aquele atleta que acabou de chegar, mal pode sentar e degustar uma pizza, pois precisa correr para o computador para efetuar sua inscrição para o ano seguinte.

Esta grande "correria atrás do rabo" esta presente em competições de Ironman, tanto para os atletas que querem apenas o desafio, quanto para os atletas que querem estar no campeonato mundial no Hawaí, e esta oferta de gente querendo correr Ironmans é muito maior do que a demanda de eventos.

É por isso que o mercado, já que é dominado por empresas, achou uma solução e aproveitou o que o uso da palavra Ironman é de uso comum, e inventou os Challenge Ironman.

Os Challenge são competições de Ironman, com as mesmas distancias de 3.8-180-42 mas sem a bandeira da marca líder no mercado.

Estas novas organizações de provas de Ironman, ou de Meio-Ironman estão predominantes na Europa e nos USA, mas já migrando para a América Latina, Africa e Oceania.

Elas se adaptam ao atleta amador que é o cliente Ironman, e quase mimam as pessoas dando um kit muito mais completo com mochila personalizada, camiseta, boné, e muitos outros brindes além de prêmios para os melhores do age group.

Para os profissionais, a regalia é muito maior e o atleta de alto rendimento é tratado como merece, pois além da premiação mais alta, ele não paga inscrição, e em muitos casos seu custo de viagem e hospedagem é bancado pelo próprio evento. Quanto melhor o atleta, melhor ele será tratado.

Esta existindo uma grande batalha para influenciar os atletas de Ironman, sejam eles profissionais ou amadores nessa escolha da decisão de onde participar.

Para os atletas de performance, tanto amadores de elite quanto profissionais, o Hawaí é prioridade, por ser muito mais do que apenas uma competição... o Ironman Hawaí é mítico.

O Ironman Hawaí é absurdamente maior do que o evento em si, e consequentemente muito maior do que a empresa que organiza.

O atleta que ganha o Ironman do Hawaí, na minha opinião é "o cara".

Posso colocar todos os atletas de todos os outros esporte existentes atrás dessa grande fila.

O ganhador do Hawaí tanto no masculino quanto no feminino é absoluto em todos os quesitos, não só fisicamente, e a última coisa que fez ele ir para a Big Island, foi correr atrás dos míseros 110 mil dólares de premiação.

Por enquanto, o Hawaí é o Hawaí, e por isso ainda é intocável, mas em algum momento o foco dos atletas vai mudar, e em algum outro momento vai surgir um Challenge Ironman World Championship, dando quem sabe, um milhão de dólares para o ganhador, e o Mito será passado, pois a questão custo benefício será maior do que o sentimento de respeito por Kona.

Isso é felizmente ou infelizmente apenas uma questão de tempo.


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3 comentários:

3 ATHLON NA VEIA disse...

Ciro,
Feliz 2012 para todos nós...!
Teu relato é a verdade absoluta da evolução de qualquer esporte.
A partir do momento que a concorrência aumentar os atletas, principalmente os amadores, começarão a "pesar" a famosa relação custo x benefício.
Apenas como exemplo, mesmo tendo apenas 3 Ironmans Brasil nas costas, consigo ver uma queda na qualidade da organização em Floripa nos 3 últimos anos.
Porque ?
Falta concorrência.
Por enquanto a marca Ironman é soberana não só no Brasil, mas no mundo inteiro.
A concorrência é saudável.
Boa matéria.

Xampa disse...

E os caras para garantirem visibilidade para sua marca, mudaram a pontuação pro Havaí. Só para obrigar os pros a disputar mais provas da sua marca e não do Challenge. Tomara que que role um no Havaí.
Não curto empresas que fazem isso. Assim como não curto a Apple, que faz isso direto.

Felipe Maia disse...

Temos boas provas na América do Sul, principalmente para quem mora no sul/sudeste, pela questão da distância.Voltei há pouco mais de um mês do Iron Punta, que neste ano acontecerá 2/dez, e em março irei fazer um Half IM em Mar del Plata.No começo de fevereiro tem outro Half IM em Colônia-URU. Então, prova há, é só procurar e acabar com esse "monopólio" da marca IM.